Percebendo que seus investimentos não progrediam e suas economias se acabavam rapidamente, o homem procurou explicações além da crença comum, buscando seitas e religiões alternativas para conseguir as respostas que as outras não deram.
E foi em uma dessas, sem nome e sem registro, que encontrou o que procurava.
Foi informado que estava possuído, mas não por demônios convencionais que vemos se apossando de pessoas pela cidade afora, eram espíritos distintos, um espírito distinto, pois o outro não podia ser chamado assim.
O homem ateu se chocou com a notícia, duvidou, e relutou em aceitá-la, porém devido ao grande caos e fracasso em que sua vida se encontrava, não teve outra escolha, abraçou a última opção e se deixou envolver pelos mistérios da seita sem nome.
Cada dia mais afundado em sua própria tristeza, o homem sentia que tais espíritos não só consumiam sua força como também seu espírito, sua alma. Desesperado com tal pensamento, o homem correu logo à seita e pediu uma resolução para o caso, um exorcismo, um fim aos espíritos que o dominava.
Algumas semanas se passaram depois do começo dos rituais, e verificou-se que o caso do homem era realmente incomum, talvez o mais incomum dos casos de possessão já registrados, ou não registrados. Tratava-se de dois espíritos, dois espíritos que arruinaram a vida do homem e consumiam, a cada dia mais, seu corpo e sua mente, um índio e um alienígena.
Chocado com tamanha constatação e se sentindo e agindo como aberração, foi tratado com cuidados especiais e iniciado na arte da seita que iria curá-lo, aprendendo passo a passo as verdades de seus médicos e sendo instruído sobre o quê deveria ser feito para o exorcismo.
Não eram conhecidos os motivos da posse da alma do homem pelo índio, mas não era o primeiro caso de invasão indígena, os feitiços e textos para a expulsão estavam prontos, feitos em outras épocas por outros mestres, para outros casos. Porém nada se sabia a respeito do alienígena, o quê queria ou por qual motivo estava ali. Conheciam sim a existência de seres de outros planetas, estudos sobre eles já haviam sido realizados, mas possessão? Não tinham histórico até então.
Sabia-se de três tipos de alienígenas que visitavam frequentemente a Terra, os cinzas, maus e assassinos, os verdes, apenas cientistas espaciais inofensivos, e os azuis, que combatiam os cinzas, portanto, aliados. Para o caso do homem, estava claro o fato de ser o cinza o invasor, mesmo sendo desconhecida essa capacidade.
O homem ouviu o lamento dos magos e crentes da seita, não havia nada para ser feito a respeito do alienígena. O índio seria expulso facilmente através de um ritual a meia-noite no lado leste da cidade, descobriu-se através de livros e orações que aquela região era a antiga aldeia massacrada por conquistadores em busca de novas terras para expansão da cidade, não teria erro, seu espírito se apegou no corpo do homem, pois o tinha como escolhido para ajudar toda sua tribo presa a Terra, no local da antiga aldeia.O homem foi escolhido pelos indígenas. Sua falência material e mental não era culpa desses, mas sim do invasor de outro planeta, o alienígena cinza.
Desolado, o homem decidiu ajudar os índios. Faria o ritual por eles, somente por eles, já que a expulsão do alienígena era impossível e sua vida estava amaldiçoada para sempre. E assim se sucedeu.
Meia-noite, a fogueira foi acessa e iluminava agora as vidraças dos prédios construídos sobre corpos e mais corpos de homens, mulheres, crianças e animais que antes habitavam o local, eles continuavam ali, espíritos presos pela raiva e crueldade de suas mortes, apenas esperando pelas palavras libertadoras dos magos que ali também estavam presentes.
O homem sentiu náuseas e fortes contrações musculares depois de ouvir o feitiço dos mestres, e enquanto observava a fogueira crescendo e dançando numa bonita e ao mesmo tempo macabra apresentação, seu antigo hospedeiro indígena saiu como uma brisa forte de seu corpo. Gritando e ao som de tambores invisíveis, o índio carregava preso em seus fortes braços o alienígena cinza que se debatia tentando voltar.
Estáticos e assustados diante da manifestação material do extraterrestre cinza, só restaram aos magos assistirem ao tronco em chamas atravessando-o pelas costas, e seu algoz, o homem, cheio de fúria, o espancando, ao som dos tambores dos indígenas agradecidos, com o tronco ardente até a forma cinza e esguia do ET se tornar em uma massa disforme e em chamas no chão.
E assim foi a história. Ainda não se sabe o porque da invasão do alienígena, nem se o índio realmente escolheu o homem por achá-lo especial ou se o possuiu para livrá-lo do corpo cinza maligno no momento exato, o salvando da morte certa.
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